segunda-feira, 16 de março de 2009

Le première jour...


Começo a pensar que só vou conseguir contar o que se passa por aqui quando eu for embora. Acontece que as experiências estão sendo múltiplas e únicas e acabam me afastando um pouco do mundo virtual.
Desculpas à parte, hoje quero contar sobre o estágio.

Mas antes disso é preciso fazer uma ressalva: Quando você for fazer algo em um país que não é o seu, procure por seus meios entender a cultura deles, principalmente as maneiras de tratamento, mesmo que as “boas maneiras” pareçam para você “más”. E sempre, eu disse SEMPRE desconfie de quem se diz seu amigo logo de cara e lhe oferece “aquela ajuda” de quem já conhece o local há mais tempo.
Enfim, vamos aos fatos.

Não sou dada aos serviços de casa, por isso que três dias foram suficientes pra eu dormir horrores e descansar o suficiente pra querer fazer algo útil. É preciso lembrar aqui que não vim pra África com o intuito de salvá-la, como erroneamente fazem muitos estrangeiros por aqui. Eu vim olhar! Vim comparar, admirar, criticar, elogiar! Vim viver uma experiência diferente. Ponto.

Decidi unir o útil ao agradável e me lembrei das sessenta horas de estágio que eu teria que fazer para a licenciatura quando voltasse ao Brasil. Resolvi adiantar. Pensei em fazer apenas umas dez horinhas, divididas entre a escola pública e a privada.
Comecei pela particular, por indicação de uma amiga cuja filha estuda numa escola de bases moçambicanas.

Nada escapava dos meus olhos em cinco minutos de espera entre minha chegada à recepção da escola e o atendimento da diretora (sim, pasmem, a diretora veio me atender para falar sobre estágio): quadro de honra, chão encerado, crianças uniformizadas, recepção, pessoas treinadas, educadas, escola limpa, banheiros limpos, professores de bata padronizada com o símbolo da escola, crianças correndo pelos corredores (porque criança é criança em qualquer lugar do mundo!!!), foto do presidente da república logo na entrada, jardim bem cuidado, espaço para estacionar transporte escolar, seguranças de camiseta e calça de abrigo (alguém ainda usa dizer calça de abrigo???). Ufa...

A diretora me chama. Converso com ela, exponho meus objetivos e prontamente sou aceita na escola!

Não comecei o estágio nesse dia, mas saí de lá depois de uma hora de explicações e apresentações, portando toda grade-horária dos professores de Português, além de algumas fichas de assistente que eu teria que preencher ao final de cada aula. Conheci também os professores que acompanhariam meu estágio.
No dia seguinte cheguei à escola no primeiro horário da tarde. A professora da quinta classe – nosso mesmo atual quinto ano – esperava-me. Entrei na sala causando estranheza e risos nos alunos, que cochichavam entre si. A professora logo me apresentou:
- Essa é uma professora brasileira que escolheu nossa escola para pesquisar sobre a educação moçambicana. Ela veio ver como ensinamos, como vocês se comportam... E espero que se comportem, ok?

Sentei-me ao fundo da sala, por ordem da professora. As crianças estavam inquietas pela minha presença, mas tentavam prestar atenção na aula.
A relação professor-aluno ali era de extremo respeito. Fiquei impressionada. Já há um ano e meio venho vivenciando a realidade das escolas brasileiras, tanto privadas quanto públicas, e a relação de autoridade e respeito do professor há muito se perdeu.
Aqui não.
Senti vergonha de invejar respeito.

A professora quase não usava a lousa! Posso ver a cara boquiaberta de vocês quando eu disser em que se baseia o método de ensino de língua portuguesa daquela senhora de aproximadamente quarenta e cinco anos de idade: oralidade e escrita.
Fiquei fascinada! Língua portuguesa através de textos. Algo muito familiar e que sem dúvida me causou inquietude. E sem recurso algum de mídia ou mesmo exemplares frescos de livros didáticos modernos, ela conduziu a discussão inflamada de mãozinhas inquietas que queriam falar, opinar e escrever sobre o texto de cinco linhas proposto no livro didático.

Fascinante! Esse é o adjetivo para aquela aula. A professora sabia seu tempo. Os alunos sabiam seu espaço. Apaixonante.
Senti vontade de dar aulas novamente.
E no momento seguinte pensei se seria preciso que passássemos por uma nova colonização e uma nova guerra civil para entendermos questões básicas de hierarquia e respeito. Aí pensei que isso seria submissão. E meu pensamento virou uma bola amorfa de idéias que não se encaixavam sobre o modelo atual da escola brasileira e o acúmulo de teorias inúteis sobre a necessidade de incursão do construtivismo.

Veio o intervalo e, com ele, o final das duas aulas. As crianças fizeram um círculo ao meu redor. Queriam saber sobre o Brasil, perguntaram se eu conhecia a Eliana e me acharam parecida com ela. As meninas mexiam no meu cabelo. Os meninos riam atentos ao que eu contava sobre o Brasil.

Descobri, aqui na África, que o problema não está no método. Para alguns posso não ter descoberto nada. Mas isso muito significou aqui na minha alma docente.
Logo conto mais...

C’est la vie... C’est ma vie… C’est ça pour aujourd’hui!

e a foto?...
Daqui a pouco eu coloco!

9 idées chouettes:

Jan disse...

Imagino que esteja vivendo experiências incríveis, Clau.

Conta sempre pra gente tá?

Clau disse...

Eu tô tentando...rs! Mas talvez faça isso melhor quando voltar ao Brasil. Aqui tá dando tempo de viver...
bjão, Jan, acompanha sim!

Moniquilda disse...

Viva muito, amiguinha!
E aproveite cada minutinho, sim?!
:)

André Henriques disse...

Quando seu pensamento virou uma bola amorfa, pensei que eu aqui teria que te perguntar muita coisa que você viu para entender algumas coisas que você contou.

Enfim... é uma crítica que eu faço ao que fizemos com nossa liberdade. Chegamos ao ponto onde teoricamente somos livres de um governo tirano, no entanto nunca estivemos mais presos a ditadura de nossos vícios. Como a luta para melhorar nossa situação atual é contra nós mesmos, nós desistimos logo de cara, pois abrir mão de certas coisas, principalmente de nossos vícios que nos dão certo prazer, não é algo que ainda temos a capacidade de fazer.

Só uma coisa, caso não tenha feito ainda, não se esqueça de entrar no site da Feusp e pegar a ficha de estágio para que eles assinem as horas pra você.

Bons estágios!

Clau disse...

Não sei...
A questão é que existem várias maneiras de liberdade e talvez nosssos vícios contribuam para muitas delas.

A renúncia implica numa escolha, sem dúvida! Então parece que não se trata de se libertar e sim de escolher.

Bem, quem sabe um dia eu chegue lá..rs!

bjo

Anônimo disse...

ainda existe gente preocupada com as crianças do mundo e isso ainda dá alguma esperança para mim, penso que muitos esperam viver eternamente aqui sua vidinha e pronto. ótimo saber de teu trabalho e interesse

só uma coisa, peço até permissão para me intrometer. a cara blogueira respondeu para o rapaz que os vícios contribuam talvez para alguma maneira de liberdade. acho que o vício sempre aprisiona, uma vez que ele sempre nos cobrará o que ele precisa até ficar extasiadamente satisfeito

tudo o que nosso corpo pede, de certa forma nos aprisiona. pensando nisso, acredito, eu, não haver possibilidade de liberdade neste mundo. contudo, uma vida menos aprisionada pode ser interessante

a questão é sempre escolha. e escolher o que queremos fazer, queremos por perto e o que queremos deixar para o que vem pela frente

Huguinho (Miltão) disse...

Olá, aqui é o Miltão, amigo da sua irmã que conheci em uma das viagens para Conchas e conheci vc na viagem para Salto de Pirapora (acho que no ano retrasado).
Vejo que está tendo e terá boas experiências aí. Penso que os países da África são bons lugares para serem explorados para tirar a fama de que eles só possuem miséria. Assisti hoje no Fantástico uma reportagem sobre crianças no interior de Goiás que andam até 1h30min para chegarem até a escola;só têm aulas, se tiverem merenda porque muitas saem sem comer de suas casas; a merenda vem através de um grupo de voluntários e quase chorei assistindo esta reportagem. Penso que educação é tudo. Acho que ver o brilho do olhar destas crianças tanto daqui quanto daí em querer aprender não deve ter preço.
Abraços

Clau disse...

Oi Anônimo! Digo que o vício liberta de alguma forma porque não deixa de ser uma escolha, entende?

Cheguei ao Brasil ontem e essa experiência foi impagável. Tenho muito pra contar e espero conseguir postar aos poucos.

Miltão, seja muito bem vindo! Olha, essa experiência nas escolas africanas me fez querer fazer o mesmo por esse brasilzão. Lá em África você espera que as coisas sejam assim, aqui a gente tende a achar que está tudo bem.

Já ouvi gente falar que não é certo ir pra fora quando nosso país precisa tanto de nós. Mas penso que não importa a nacionalidade, mas sim com o que você pretende contribuir pra fazer algo melhor para outra pessoa. E isso vai além da nacionalidade!

Abraços.

André Henriques disse...

Ah... espero que a referência do dito sobre sair do país não tenha sido minha. Eu disse algo parecido, mas não disse isso não... hehehehehe

Quanto ao vício, acho que concordo com o anônimo. E o que você fala é certo também, menos a parte da libertação ou liberdade. É sempre uma escolha. A única coisa é que por ser escolha é o caminho que quisemos seguir, então, só não dá para ficar culpando nada, além de nós mesmos ou nossas escolhas, lá pra frente se não der certo.

Mas acho que preferir um vício é escolher a ficar em uma cadeia do que em uma praia. Mas ainda sim, é sempre uma escolha. Contudo, o fato de poder escolher não é em si libertador. Já que podemos escolher ficar presos.