segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Les statistiques humaines...



É engraçado como de repente a linha da vida se fez tênue aos meus olhos.
Para coisas que outrora havia tanta coragem, agora me vejo covarde. Receios, medos, aflições que nunca me habitaram, agora fazem moradia constante nos meus pensamentos.
Já ouvi falar que se trata de maturidade, mas acho que se trata mesmo de tirar a capa de super-heroína e de cair por terra a vã pretensão de ser imortal.

Desde o acidente do Air France eu não sou mais a mesma! Não consigo não me colocar no lugar de cada um dos passageiros, de ler suas histórias e pensar que cada um tinha um propósito para estar ali. Um casal que acabara de se casar! Imagine só: os preparativos da festa, os bem-casados, o dia da noiva, a emoção do vestido de noiva, o sim em frente ao padre, o beijo, a festa, a ansiedade da lua-de-mel... e o silêncio.

Uma moça que acabara o mestrado em Londres e estaria indo para a Alemanha com a chance de emprego da sua vida! Quantas roupas novas ela comprou? Quantos abraços deu na mãe antes de embarcar para o que seria o começo do seu futuro brilhante? Muitos...
Seja então a joia valiosa ou uma simples escova de cabelo...as lentes de contato ou uma carta romântica ganhada do namorado antes de embarcar...tudo ali, misturado em um único destino para vidas tão diferentes: o fundo do oceano.

Não consegui não ligar...Não consegui não me abalar!

Ontem vivi algo que novamente topicalizou meu medo mais profundo. Um medo que todos temos, mas que ignoramos a existência. Aquilo que pode irromper qualquer plano sem aviso prévio e a que todos nós estamos fadados, mas que é claro, ninguém pensa diariamente, enquanto vai ao trabalho ou decide no supermercado qual shampoo vai levar.

Eram quatorze pessoas em pânico dentro de um barco que iria da Ilha de Inhaca para o porto de Maputo, em Moçambique. Foram as duas horas mais longas da minha vida!
A chuva já acontecia desde a manhã e todos esperavam que ela passasse para que o barco saísse. Ela enfim cessou, mas o mar ainda estava um tanto nervoso para aceitar qualquer embarcação. No caminho do pier, o vento gelado nos fazia contrair todos os músculos e insistia em chegar aos tímpanos fazendo um barulho ensurdecedor!

Os tripulantes pareciam certos da partida e seguros quanto ao domínio do mar. Ledo engano.

Logo que o barco saiu, a primeira onda o fez virar quase em sessenta graus. As águas estavam furiosas e batiam com força nas laterais do barco, se encontrando nos vidros, dando a impressão de que havia ali uma mangueira de alta pressão jorrando água. As ondas eram enormes e apesar de o capitão ter o cuidado de fazer uma rota diagonal em relação a elas, por vezes eu me sentia in Drop, no alto dela, e no momento seguinte um estrondo fazia o barco voltar ao mar novamente, batendo o casco na água.

O cenário era assustador: dois pastores à minha frente, Moçambicanos, incessantemente repetiam “Ah, não, isso está mal, muito mal! Não, isso não está nada bom!” e passavam a mão na cabeça com aflição; ao meu lado minha sogra, que é cardíaca, estava deitada com a cabeça pra trás, tentando se concentrar para não enjoar; atrás estava o More, mais branco do que um papel sulfite e logo no momento seguinte foi para o último banco do barco, sofrer sozinho o enjôo que vocês já podem imaginar no que resultou! Nem preciso dizer que a concentração da sogra não surtiu efeito...

Nisso, um dos tripulantes começou a fazer um barulho de canequinha. Olhei para trás e achei que ele tivesse se juntado ao rol dos mareados, mas não, era pior: ele estava tirando água de dentro do barco. Sim, com uma canequinha e um balde!
Tentei abstrair a visão que acabara de se fazer em minhas retinas e entendi que só uma coisa me restava: rezar!

E assim o fiz!

Rezei para que Deus acalmasse aquelas águas, rezei para que fizesse meu amor parar de enjoar e minha sogra não enfartar, rezei para que eu não começasse a enjoar, rezei para que todos se mantivessem calmos ali dentro, rezei para que o capitão tomasse as melhores decisões, rezei para que todos soubessem nadar e para que as saídas de emergência funcionassem...rezei para que eu pudesse escrever esse texto hoje!

Mantive meus olhos fixos no mar, como se pudesse controlar sua fúria! Cada vez que eu olhava dos lados para ver como estavam todos, era como se estivesse me distraindo e ele, certo dessa displicência, se revoltasse ainda mais.
Um dos pastores então chamou o capitão e perguntou: “Amigo, será que chegamos?” e no banco do lado uma amiga, esperançosa, já abrira um sorriso, crente da resposta acalantadora do capitão, que chacoalhou a cabeça negativamente: ”Deus é quem sabe”. Ela pôs-se em prantos, carinhosamente amparada pelo marido que se mantinha firme...

Na minha mente muitas cenas se passaram. Pensei na questão das escolhas, que sempre me ronda, e que se tivéssemos feito tudo diferente não estaríamos passando aquilo. Pensei que um segundo de medo é muito tempo e que um segundo de vida é mais tempo ainda! Pensei que eu queria muito ter um filho e sentir a minha barriga crescer. Pensei que queria me casar. Pensei que coisas materiais não servem pra nada, mas que todomundo deveria ter um Dramin na bolsa. Pensei que meus pés nunca mais se esquentariam. Pensei que estava com muita saudade da minha mãe e que se ela estivesse ali, mesmo não sendo cardíaca, teria enfartado. Pensei nas rotas de fuga possíveis. Pensei que colocaria três coletes na minha sogra, para a fazer boiar, já que tinha certeza de que ela entraria em pânico. Pensei no Titanic. Pensei nas possíveis manchetes do Jornal Nacional para esse caso. Pensei que aquele convés iria virar um rio de vômito...

Pensei e rezei. Rezei e respirei fundo para não enjoar!

Depois de uma hora e meia, a fúria se amansou e o céu se abriu num incrível azul de brigadeiro! Ao meu lado as pessoas dormiam. Minha sogra já havia dado um nó no saquinho que usara e agradecia a Deus pela calmaria, e no banco de trás o More já fazia gracinhas, perguntando pela milésima vez: "Mãe, você tá gostando?". Minha amiga, antes em prantos, sorria e agora se entretinha com sua vontade absurda de ir ao banheiro. Já ríamos disso. Os pastores estavam apenas calados.

E eu, olhando aquele azul celeste, fui invadida por uma paz indescritível. Só conseguia agradecer por, enfim, avistar a costa de Maputo.

Sim, poderia ter sido tudo diferente. Mas quem realmente se importaria? Uma vez assisti a um filme do Marcelo Masagão que se chama “Um pouco mais, um pouco menos” e gostei muito de uma frase que, hoje, resume toda a angústia desse texto para mim e, talvez, a indiferença para você que o lê por acaso: “Um é tragédia, um milhão estatística”.

E eu que tive a sorte de não ser tragédia e nem estatística, continuo a me importar com tantas vidas perdidas naquele voo da Air France...

E a foto...
Ilha de Inhaca - Pier.
by Google.

17 idées chouettes:

Roger disse...

G-zuis!
Nossa, que aventura, hein!
Essa é só pros fortes e corajosos!
Ainda bem que suas preces foram atendidas e você está aí, viva, linda e loira.

Então... voltei em alto estilo pro mundo dos bRogs (como diz a Mônica).
Faizfavor... Muda o link do meu blog para o novo (do wordpress).
O seu, claro, já está linkado no meu.

Bjomeliga!

Roger disse...

Uia, como vc é rápida!
Já mudou o meu blog...rs

Só mais uma coisinha (que cara chato q eu sou, né?): o nome do meu blog agora é "Coisa e Tal".

Bjo.

Clau disse...

Pois é, querido! Ainda me sinto mareada! Escrever esse texto foi meio difícil, parecia que a tela se movia no balanço da onda!
rs...

Welcome back...
Já mudei o nome!

bjoca

Sorellinha disse...

Clau, que coisa... fiquei com meus olhinhos vidrados na tela (ao mesmo tempo angustiada e aliviada, pois se vc escreveu o texto é sinal que tá td bem).
Hj, na volta do trabalho eu vim pensando nas coisas de verdade: no sol, na lua, na chuva, no amor... O resto é resto. O resto vai; só as coisas de verdade ficam, como sua prece, a calmaria do mar, o céu azul... ih, alá, já tô divagando. Sorry!
Beijos saudosos e tudibom pra vc aí. Nosso suco te espera!
:)

Clau disse...

Nem me fale, querida! Que bom que percebemos essas coisas em tempo de apreciá-las por longos anos...hehe.

Prometo prometido que nosso suco será uma das primeiras coisas que farei quando voltar!

beijos e saudadonas!

Sá disse...

Amiga, tb sou muito feliz por nao sermos tragédia nem estatística! E também por ter ido no banheiro logo. Essa parte foi bem importante pra mim tb.

bjs

Clau disse...

É tão bom rir disso agora, néam?
rs...

bjoca

Mariana Proença disse...

Clau!
Primeiro, meu Deus, como você escreve bem...
Segundo, caraca, que enrosco que vocês se meteram. Foram os minutos mais longos da sua vida, claro! O Lucas não tem jeito mesmo né? Ai, comecei a rir só de imaginar ele perguntando pra tia Sueli. Ai ai...
Beijos para todos! Saudades!
Mari*

Anônimo disse...

Nous sommes heureux que vous êtes bien, bien que les gens que vous aimez bien aussi. Vous êtes un élément important de la vie que beaucoup de gens ne le réalisent. Baisers

Clau disse...

Nous qui, mon cher???
rs...Ok, ok...Vc(s) pode(m) se manter no anonimato se quiser(em).
Obrigada pela tão carinhosa consideração!

E Mariiiiiiiii, que saudade!!!! Sem dúvida, esse seu amigo não tem jeito, só nos meteu em fria! rs...Tadinho, vai!

bjossss

Anônimo disse...

Je suis seule ..... mon français n'est pas très bon ....=)

Bru disse...

Ai Clau nem brinca, eu não sei o que faria se você não fosse mais voltar...pelo amor de Deus!!! E você com medo do vôo quando estava indo pra i lembra? Deus te guarde e te proteja amiga, hoje e sempre!!

beijos

Clau disse...

Bru!!! Vc apareceu, florzinha!!!
Que saudades!!!

Olha, constatei que o ser humano foi criado pra ficar em terra firme, amiga! Nem ar e nem água!
Aff...

bjoca

André Henriques disse...

Ah... pelos comentários de estar tudo bem e até pela distância temporal desse comentário e até ainda por já ter falado com você, eu não vou ficar repetindo tudo aí acima... hehehehehehehehe... o importante é você estar bem! É o que deixa todo mundo aqui em terras tupiniquins tranqüilo.

Mas, como é habitual, eu não posso deixar de pensar coisas sobre isso. Eu também pensei no pessoal da Air France, fico triste, pois sempre triste são as tragédias, oras, até porque não teriam esse nome. Só que eu não vejo como uma fatalidade, penso um tanto o quanto isso não é o destino. Prefiro pensar um pouco mais longe, de onde viemos e para onde vamos mesmo. Acredito, e você sabe disso, que nós não somos daqui e estamos de passagem.

Tirando casos de suicídios, sejam eles conscientes ou inconscientes, e alguns homicídios, sinceramente, eu acredito mesmo naquela coisa que o tempo da pessoa havia chegado, por isso acredito em destino e que muitas pessoas não morrem junto simplesmente por acaso. Agora, o porquê é assim eu não sei, oras, não faça perguntas tão difíceis também.

Eu lembro que eu passei por algo parecido, um passeio de veleiro, eu não tinha 10 anos. Meu pai mais uns amigos deles gostavam de passear de veleiro lá no Guarapiranga, enfim, represa não é para iniciantes e um dias eles descobriram isso e nunca mais eu passeie de veleiro, que droga, mas lembro do barco virando quase 90 graus e vela recolhida. Foi embaçado e engraçado. Engraçado porque eu não tinha medo do barco virar, uma vez que eu já sabia nadar e ignorava por completo toda correnteza que pudesse ter uma represa. Mas eu me preocupava com minha irmã que não sabia nada e ficava imaginando como eu teria que fazer para levá-la até a terra ou outro barco. Enfim...... hehehehehehe... estórias.

Por isso, penso que a morte é algo, sim, que temos que estar preparados e pensar nela com muita naturalidade. E como é pensar nela? É simplesmente vivendo sem deixar pendências, arestas, arrependimentos. Porque, se for chegada nossa hora, saberemos que não terá problema e que a vida poderá prosseguir sem nós sem problemas.

Você não deve encucar com suas escolhas que te levaram a estar onde você está, nem no momento como esse que você descreveu, nem em momento nenhum. Oras, será ficar definhando sempre sobre a hipótese ter uma outra vida melhor do que você tem. E eu acho grande bobagem, até porque a hipótese foi criado por alguma pessoa chamada 'Manoel' ou 'Joaquim' e que residia ali na península Ibérica, manja? A hipótese é aquilo que não é, mas a gente finge que é para pensar como é que poderia ter sido. Ou seja, na prática, serve para só encher a cabeça.

Bom... esse comentário deu uma postagem e eu vou parar por aqui. hehehehehehehhee... É isso.

Um beijão e se cuida! Viva sem medo!

Clau disse...

Oi Dé,

Esses percauços fazem a gente crescer e se fortalecer! Principalmente na fé!

Não estou mais com medo...E encaro muitas coisas de outra maneira depois disso. Confesso que funcionou como um marco.

Obrigada pelas palavras! Eu me cuido sim!

bjo

Pous disse...

Gorda, o mar é para as baleias... fica sussa!!!

Love u!!!

Bjoss

Pous disse...
Este comentário foi removido pelo autor.